Ok, eu sei que eu não sou a pessoa mais antiga da internet. Antes de eu sequer existir nesse plano, já existiam tecnologias de interações sociais na rede que conectavam pessoas do mundo todo. ICQ, os BBS (Bulletin Board System), toda a rede de e-mail já estavam online em ’99.

Person using vintage computer displaying a bulletin board system menu Representação de um BBS (imagem gerada por IA) Entretanto eu não posso negar que quando eu me entendi por gente nesse mundo virtual, as redes sociais me acompanharam desde o início. Lembro-me de pedir para minha irmã criar um site para mim e, quando não poderia fazê-lo tamanha a complexidade (grana), ela decediu me convencer que o Orkut era como se fosse um “site” para todo mundo. E, de fato, era. Uma página pessoal, a possibilidade de conectar com outras pessoas, joguinhos, comunidades… Era tudo que um site poderia fazer, e mais. Entenda site, nesse contexto, como um blog ou algo do gênero.

Quando entrei no Orkut, tudo era ainda muito arcaico. Não existiam algoritmos de recomendação e as postagens que apareciam eram simplesmente das pessoas que você adicionava como amigo. Se você não tivesse amigo nenhum, que era mais ou menos o meu caso, a “timeline” (vou usar esse termo porque não me lembro ao certo qual era o termo que eles usavam) ficava vazia. Triste, triste. Isso meio que te incentivava também a ir procurar outras pessoas, adicionar amigos, amigos de amigos, criar uma, adivinhem só, rede social.

Assim era a experiência de usar o Orkut Não vou me ater aos joguinhos e as sistemas de pontuação que existiam por lá senão ficamos aqui o dia todinho, mas era um lugar divertido de se ficar. Lembro-me também que as minhas inscrições nas comunidades eram sempre lotadas, sempre querendo fazer parte de todos os grupos ao mesmo tempo.

Mas aí então, veio 2010. Não sei se nessa época o Facebook já tinha estreado no Brasil e eu só estava atrasado, mas eu sei que foi nessa época que eu entrei por lá. Era tudo quadrado, sem graça, azul. Não dava para mudar o fundo, as cores, os temas. Você tinha que refazer todo o seu círculo social. Não tinha como importar os amigos e as comunidades para ele. Terrível. Ficava me perguntando: “por que eles lançaram isso aqui no Brasil quando a gente já tem o Orkut? É bem mais legal”. Ledo engano. Em 2014, o Orkut já parecia mais um cemitério e lá se foi a rede social que eu mais gostava.

Avançando no tempo e tendo evoluído os meios de comunicação, chegamos finalmente no que temos hoje: Instagram, X, Facebook, Youtube e outras. Há quem coloque nesse bolo o WhatsApp, o que eu acho um equívoco, dado na natureza do serviço. Se desse para entrar no perfil e adicionar os contatos dos meus contatos, aí sim teríamos uma rede social. Do contrário é só um mensageiro mesmo. Mas, sei lá, mesmo com tanto tempo e tanta evolução, eu fico pensando na simplicidade do que era o Orkut, hoje em dia.

No Facebook, hoje, não podemos curtir um vídeo diferente que a nossa timeline só se torna aquilo. Gosto de escutar alguns recitadores do Alcorão de vez em quando. Se eu curtir um vídeo sobre o Islã, pronto, o algoritmo já acha que eu sou o próximo profeta da religião. Se eu curto uma ou duas pregrações, pronto, sou o próximo papa. Não existe uma margem para respiro.

E isso não é exclusividade do Facebook, não. O Youtube funciona na mesma linha. O X é um caso a parte, porque ele também implementa essas questões de análise, mas ele é tóxico por natureza, por design. Ele faz você sentir raiva para comentar, para brigar, criar mais conteúdo (e não vamos nos esquecer o motivo pela qual ele quer isso: alimentar IA). Essa é a linha do X. Agora, com o domínio do Elon Musk, parece que isso se intensificou. O que quero dizer é: cadê aquela vontade de se conectar, criar amizades, conversar com as pessoas? Não existe mais. Não é para existir mais.

O mundo, hoje em dia, virou apenas uma grande fonte de consumo. Nada é feito para as conexões modernas. O que me gera o seguinte sentimento/dúvida: as redes sociais, hoje em dia, ainda são redes sociais? Óbvio que, pela finalidade dos seus serviços principais, elas se encaixam nessa categoria, mas será que elas não estão evoluindo para algo maior, ou pior?

Não há mais o que descobrir. Não há mais quem conhecer. Agora é tudo conteúdo. Redes sociais voltadas ao conteúdo. Projetadas e analisadas para manter você no caminho que você já está. Não há críticas. Não há novidade. Só aquilo que eles, e você, sabe que vai consumir. Os mesmos vídeos, as mesmas dancinhas, os mesmos políticos para você endeusar ou meter bronca.

Talves por isso também eu tive a vontade de criar esse blog. Ter o meu canto, ter os meus pensamentos, sem ser influenciado, seja pelo algoritmo, seja pelo criador de conteúdo. Recomendo que você faça o mesmo.